O filme 1917 concorre a 10 categorias no Oscar 2020, incluindo de melhor filme. Dirigido por Sam Mendes (mesmo diretor de “Beleza Americana”), tem levantado polêmica nas redes sociais por não exibir atores negros no elenco.


A pauta sobre representatividade tem atingido cada vez mais a Acadêmica, que graças ao ativismo social, se viu forçada a mudar algumas regras internas que abrangem os jurados e prometeu dobrar a quantidade de representantes de minorias até 2020.

Em 2017, a atriz Viola Davis, primeira mulher negra a ganhar um Oscar, um Emmy e um Tony declarou em seu discurso:

“Você não pode vencer (um prêmio) por papéis que simplesmente não existem”.

VIOLA DAVIS

Dos 9 indicados ao Oscar 2020 de melhor filme, as chances de um negro ou uma negra levar a estatueta para casa são de 0%. O motivo se dá porque não estão no elenco principal, ou se estão, aparecem como figurantes durante alguns segundos em cena.

Antes de continuar, é importante relembrarmos alguns conceitos:

Preconceito é uma atitude. É uma antipatia em função da generalização falha e inflexível dirigida a um grupo ou a uma pessoa que pertence a determinado grupo. Já o racismo é o processo de hierarquização, exclusão e discriminação baseado na raça-etnia.

Vamos falar sobre esta última definição, pois se nota a falta de atores negros nas 9 indicações de melhor filme, assim como em outras categorias. Vejamos os casos merecedores de muita atenção:

É possível contar facilmente quantos negros aparecem no filme “1917”, “História de um Casamento” e “Jojo Rabbit”. Especificamente 1917, a história se passa durante a Primeira Guerra Mundial, quando dois soldados britânicos são encarregados de atravessar o território inimigo para entregar uma mensagem que pode salvar mais de 1600 colegas de batalhão.

Durante todo filme é possível contar dois soldados negros e um soldado aparentemente latino, representado pelo ator Nabhaan Rizwan, todos com menos de um minuto em cena.

A falta de representatividade no elenco principal está presente no filme 1917, bem como em todos os outros 8 filmes em que Sam Mendes atuou como diretor.

No filme “1917”, a omissão de atores negros pode ser justificada devido ao fato de que as únicas tropas negras lutaram na França durante a Primeira Guerra Mundial. Estas foram do exército francês ou de uma unidade americana. Como o filme se concentra no exército britânico, teoricamente havia poucos negros nas tropas.

Representação Fiel x Representatividade  — o que deve ser priorizado?

Possivelmente o diretor teve a intenção de criar uma representação visual étnica teoricamente fiel, eliminando automaticamente negros do elenco, porém como vamos ver mais à frente, se existe algo que 1917 não tem, é fidelidade narrativa.

Situações semelhantes ocorreram com os filmes “Jojo Rabbit” e “História de um Casamento“.

Universal Pictures/Divulgação

Inversamente, o filme “Pantera Negra” com elenco majoritariamente negro, recebeu em 2019, 9 indicações ao Oscar, incluindo de melhor filme, perdendo para “Green Book”, um filme que divide o núcleo de atores entre brancos e negros, para atender a demanda do roteiro.

DreamWorks/Divulgação

A escolha da etnia de um ator pode ser definida pelo roteiro, como no caso do filme “Green Book”, que conta a história real da relação do pianista afro-americano Don Shirley e seu motorista ítalo-americano, Tony Vallelonga.

Recortando e analisando o cenário do Oscar 2019 e 2020, é possível observar um mecanismo estrutural que favorece a divisão dos atores em etnias: filmes de época, onde na história não haviam negros, filmes que contam histórias de famílias brancas, filmes sobre racismo, filmes sobre um reino só de negros, musicais sobre cantores brancos, filmes sobre políticos brancos, filmes sobre super-heroínas brancas ou super-heróis negros.

Se a arte imita a vida, enquanto os estúdios representam fielmente a etnia dos autores, e a maior parte da produção é sobre pessoas brancas, o que acontece com os atores negros e consequentemente a representatividade?

Na contramão desse mecanismo, a série “Star-Trek – Discovery”, distribuída pela CBS All Access, escalou a atriz negra Sonequa Martin-Green como atriz principal, e para a surpresa de muitos, não fez o papel de uma mulher negra assumindo o comando de uma nave espacial, tendo que lidar com o racismo. Na verdade, sua etnia nunca foi tema de nenhum episódio. Sonequa interpretou uma mulher assumindo o comando de uma nave espacial.

CBS All Access /Divulgação

A atriz Viola Davis, citada em uma frase no início desse texto, é facilmente reconhecida por atuações em filmes e séries que envolvem questões raciais. São poucos os filmes em que atuou como personagem principal sem tocar no tema racismo e ainda assim, é uma atriz negra, no meio de centenas de milhares de atrizes brancas, que fez sucesso e ganhou reconhecimento.

Claro que existem outras atrizes negras que fizeram sucesso e estão presentes no elenco principal de filmes, porém podemos contar nos dedos. Basta pesquisar no Google por “atrizes hollywood ” para aparecer inúmeros cards de atrizes brancas.

Nesse sentido, é preciso que atores negros sejam incluídos cada vez mais nos papéis principais, como acontece com os brancos desde o começo da indústria cinematográfica. “você não pode vencer (um prêmio) por papéis que simplesmente não existem”.

Atores negros poderiam participar do elenco principal dos filmes “1917“, “Jojo Rabbit” e “História de um Casamento“, oportunizando estes a ganhar reconhecimento e representatividade, além de criar um senso de normalidade ao ver um ator negro assumindo um papel de destaque, que provavelmente seria de um branco.

Netflix/Divulgação

A ideia de representação fiel à etinia permitiu que não existisse nenhum Elfo negro na trilogia “O Senhor dos Anéis”, pelo fato de historicamente serem criaturas brancas da literatura medieval europeia.

Ou seja, a ficção consegue criar seres humanos mágicos e imortais, de “sangue puro”, mas não consegue incluir negros em uma produção de escala mundial, que foi vista na época por 4.133.452 de Brasileiros, onde mais de 50% da população é negra e não se viu representada.

Uma questão de escolha

Embora o possível argumento para excluir negros do filme 1917 seja por motivos de que não haviam negros naquela região, mais tarde, a premiação o elegeu como um dos concorrentes para levar a estatueta de melhor roteiro original, indicando a inexistência de material publicado anteriormente. O diretor e toda equipe estavam livres para escolher o elenco, mesmo se tratando de um conflito que se passa em 1917.

O que obriga manter uma representação fiel da etnia dos personagens?

Recentemente quando os estúdios Disney anunciou Halle Bailey, atriz e cantora de 19 anos para interpretar a princesa Ariel em um live-action, houve muita polêmica nas redes sociais por um motivo: a jovem é negra. Algo que igualmente seria motivo de comoção caso algum personagem principal de 1917 fosse negro.

Carl Hamilton, pesquisador de geografia humana, formado pela Roskilde University, aponta uma série de irrealidades presentes no filme, desde o cenário onde acontece as filmagens, até a motivação do arco principal. Para conferir a lista completa, clique aqui (em inglês).

Não é coerente falar em representação fiel da etnia, quando se trata de uma ficção Talvez em uma produção com o objetivo de afirmar o sub lugar do negro, que não é o caso.

O resultado? Mais um filme de escala mundial sem nenhum ator negro no papel principal.

Universal Pictures/Divulgação
Universal Pictures/Divulgação
Universal Pictures/Divulgação
Autor

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil "Universos Diversos" sobre educação inclusiva. Há 10 anos escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

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