Política

Como o Espetáculo da Caridade cega os Direitos Básicos

Pinterest LinkedIn Tumblr

Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil soma 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, sobrevivendo com até 145 reais mensais.

A miséria atinge principalmente os estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta.

No pequeno município Alagoano de Penedo surge um personagem carismático e sobretudo assistencialista: Carlinhos Maia, que já foi considerado o brasileiro mais visto no ‘stories’ do Instagram.

O grande sucesso conquistado aos poucos nas redes sociais permitiu que Carlinhos saísse da extrema pobreza e passasse a fazer mais sucesso ainda ajudando os mais necessitados.

Carlinhos doa cama para quem não tem onde dormir, dá comida a quem não tem o que comer, fornece transporte a quem não tem como se locomover e até proporciona um visual novo a uma mãe que caminha em uma estrada de terra sob o sol forte segurando seu filho pela mão.

Foto: Reprodução Youtube

É dia das mães no ano de 2018 e Carlinhos anuncia logo pela manhã para seus milhares de seguidores que vai fazer “uma mulher desconhecida feliz“. Pega seu carro e começa a dirigir pelas ruas da cidade.

Segundo o influencer Alagoano, “um dos motivos de ganhar tantos seguidores é o compartilhamento em massa das histórias nas redes sociais“. De fato os vídeos com conteúdo de caridade são os mais compartilhados e criticados. Por exemplo, no YouTube, o vídeo em que Carlinhos ajuda um casal de idosos soma mais de meio milhão de visualizações.

Foto: Reprodução Youtube

Ao som de uma música romântica, Carlinhos escolhe uma mulher que aparentemente precisa de ajuda.

Após uma rápida conversa ali mesmo, Alexsandra é convidada a entrar no carro e enquanto Carlinhos segue dirigindo, explica que é mãe de 4 filhos, está desempregada e o marido viajou à trabalho para o Rio de Janeiro há 5 meses e falta dinheiro para poder visitá-lo.

A conversa segue ali mesmo dentro do veículo e após prospectar a necessidade da família, o plano de caridade é iniciado.

Foto: Reprodução Youtube

A primeira parada é no salão de beleza, passando por uma loja de roupas. No fim do dia é levada a um local específico, onde é recebida com uma apresentação ao vivo de música evangélica, um buquê de flores e vários presentes.

Carlinhos, após um discurso, anuncia que conseguiu uma entrevista de emprego e passagens de ida e volta para o Rio de Janeiro.

No fim do vídeo Alexsandra é questiona sobre o que teria para dizer a todas as mulheres do Brasil e responde um pouco envergonhada:

“Ter a mesma sorte que eu né?”

Vídeo na íntegra:

Depender da sorte?

Analisando essa ação específica, levando em consideração uma visão crítica, logo é possível concluir que nenhuma mulher gostaria ou deveria depender de encontrar por acaso um influencer para poder cuidar da aparência, comprar roupas, visitar o marido em outra cidade, muito menos conseguir um emprego.

Alexsandra e todos socorridos por Carlinhos Maia estão em um estado permanente de sofrimento, visto que não possuem acesso a recursos básicos como emprego ou dinheiro para comprar alimento.

O clube dos meritocratas poderiam dizer que eles não se esforçam o suficiente para obter o que lhes faltam, porém uma análise mais atenta mostra que a origem desse sofrimento vem de um complexo jogo de poder que envolve dinâmicas sociais e interesses políticos econômicos.

O sofrimento social resulta de uma violência cometida pela própria estrutura social.

A relação desigual de poder resulta em não poder negociar os termos da própria existência.

Como dito no início, são 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza. Traduzindo em outras palavras, são 13,5 milhões de pessoas com possibilidades de ação e escolhas limitadas.

O Filósofo Johan Galtung chama isso de violência estrutural, que é uma forma particular de violência que não precisa da ação direta do sujeito para acontecer, mas que é caracterizada pela sua natureza processual e indireta.

Não foi o mero acaso que trouxe o sofrimento social para essas pessoas. Podemos mencionar algumas forças sociais “pouco conhecidas” como pobreza, racismo, diferenças de gênero, migração, heranças coloniais e exclusão social.

A ajuda de Carlinhos Maia pode ser classificada como cidadania humanitária, termo utilizado pelo antropólogo Vinh-Kim Nguyen para definir quando alguém, para obter direitos de cidadão, precisa apresentar uma patologia social, ou seja, a marginalidade, a dor, a doença, até a morte são requisitos para aí sim reivindicar direitos.

Isso quer dizer que todos acudidos por Carlinhos Maia precisam passar primeiro por situações precárias para só depois ter o direito de ser ajudados.

Alexsandra estava na garupa de uma moto embaixo do sol forte do nordeste enquanto seu filho, caminhando a pé, tentava acompanhar a velocidade do veículo. Foi assim que Carlinhos os avistou na estrada.

Sujeito de direito x Caridade

Alexsandra é um sujeito de direito ou um sujeito de caridade?

No início do século XX, começam a surgir os direitos sociais, resultado das lutas enfrentadas pela classe trabalhadora.

Esses direitos se referem ao atendimento das necessidades básicas humanas, como alimentação, habitação, assistência, saúde, educação, garantidos pelo artigo 6º da nossa Constituição Federal, ou seja, o mínimo para que Alexsandra possa exercer sua cidadania.

Nesta página da Secretaria Especial do Desenvolvimento Social, é possível ver que existem Três dimensões da cidadania, que são os direitos sociais, juntamente com os Civis e os Políticos.

Alguns exemplos da aplicação dessas dimensões, são os programas que visam geração de trabalho e renda, de alfabetização de adultos, de capacitação profissional, entre outros.

Infelizmente, esses direitos existem muito mais no papel do que na realidade.

Em um mundo ideal, não precisaríamos do Carlinhos para proporcionar recursos tão básicos porque, afinal, seria dever do Estado garantir que esses direitos sejam cumpridos.

Inúmeros fatores políticos econômicos fazem com que somente os direitos garantidos nos papéis não sejam suficientes para atender os 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, cabendo a caridade (Carlinhos Maia) tentar dar conta de toda essa violência social.

E apesar de programas sociais como o Bolsa Família ajudar milhões de Brasileiros na extrema pobreza, há quem o critique dizendo que “dar não ensina a pescar”, mas como ensinar a pescar sem caniço, anzol, e sem peixe?

A Naturalização da Caridade

A falta de um discurso crítico, que fale sobre fatores sociais e direitos, faz com que as ações feitas por Carlinhos Maia se tornem “algo normal” e se transformem em um espetáculo da caridade.

Se torna normal um sujeito depender da sorte para poder ter uma cama decente para dormir. Se torna normal uma mulher depender de um desconhecido para conseguir uma entrevista de emprego.

Fontes:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/06/politica/1573049315_913111.html

https://craspsicologia.files.wordpress.com/2013/03/interlecuc3a7c3b5es-entre-a-psicologia-e-a-pnas.pdf

https://journals.openedition.org/etnografica/1036

Franklin Alexandre é gestor de Marketing e graduando em Psicologia. Autor do livro paradidático "Universos Diversos em Diversos Universos", atualmente conduz uma pesquisa voltada para a área de Políticas Públicas de Saúde pela Universidade Paulista e atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas de saúde, psicologia escolar, psicanálise com crianças e educação inclusiva.

Escreva um Comentário