Como naturalização da caridade contribui para o esquecimento dos direitos sociais conquistados.


Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil soma 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, sobrevivendo com até 145 reais mensais. A miséria atinge principalmente os estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta.

E é no pequeno município Alagoano de Penedo que surge um personagem muito carismático e sobretudo assistencialista: Carlinhos Maia, que já foi considerado o brasileiro mais visto no ‘Stories’ do Instagram.

O grande sucesso conquistado aos poucos na rede social permitiu que Carlinhos saísse da extrema pobreza e (mesmo estando entre os mais pobres) passasse a fazer mais sucesso ainda, ajudando os mais necessitados.

Mesmo que você ganhe R$ 27.744 por mês, matematicamente sempre vai estar mais perto dos pobres que ganham R$ 820 mensais, do que dos verdadeiramente ricos milionários.

Ilustração do Viés do Falso Rico

É possível encontrar vídeos do Carlinhos doando uma cama nova a um vendedor de picolé, pagando compras do supermercado para uma seguidora, presenteando um desconhecido com um carro, comprando toda mercadoria de um vendedor e depois doando, e até ajudando uma família carente, caso no qual vamos olhar mais de perto a seguir:

No dia das mães do ano de 2018, Carlinhos anuncia para seus seguidores que vai fazer “uma mulher desconhecida feliz”. E então pega seu carro e começa a dirigir pelas ruas da cidade.

Segundo o influencer Alagoano, um dos motivos de ganhar tantos seguidores é o compartilhamento em massa das histórias nas redes sociais. De fato os vídeos com conteúdo de caridade (do Carlinhos) são os mais compartilhados.

Nas redes sociais, centenas de pessoas pedem ajuda e compartilham mensagens de pessoas que estão precisando de amparo, na esperança de que Carlinhos escolha uma delas. No YouTube, o vídeo em que ajuda um casal de idosos soma mais de meio milhão de visualizações.

Ao som de uma música romântica em inglês, escolhe aleatoriamente Alexsandra, mãe de quatro filhos e desempregada. Imediatamente é convidada a entrar dentro do carro e enquanto Carlinhos segue dirigindo, ela explica que o marido viajou à trabalho para o Rio de Janeiro há 5 meses e lhe falta dinheiro para poder visitá-lo. A conversa segue ali mesmo dentro do veículo e após prospectar a necessidade da família, o plano de caridade é iniciado.

A primeira parada é no salão de beleza, passando por uma loja de roupas. Chegando no fim do dia, é levada a um local específico, onde é recebida com uma apresentação ao vivo de uma música evangélica, um buquê de flores e vários presentes. Carlinhos, após um discurso emocionante, anuncia que conseguiu uma entrevista de emprego e passagens de ida e volta para o Rio de Janeiro.

No fim no vídeo, Carlinhos pergunta o que Alexsandra teria para dizer a todas as mulheres do Brasil e ela responde um pouco envergonhada:

“Ter a mesma sorte que eu né?”

Vídeo na íntegra:

A visão crítica

Se analisarmos essa ação específica do Carlinhos Maia, levando em consideração determinantes sociais e a estrutura socioeconômica, podemos de início já entender que nenhuma mulher precisaria de ter a sorte e depender de encontrar o Carlinhos Maia para poder cuidar da aparência, comprar roupas, ou visitar o marido em outra cidade.

Alexsandra e todas as outras pessoas socorridas por Carlinhos Maia na situação de falta de acesso a recursos básicos como uma moradia, alimentação e locomoção estão em um estado permanente de sofrimento. Alguns ainda poderiam dizer que não se esforçam o suficiente para obter o que lhes faltam, porém uma análise mais atenta mostra que a origem desse sofrimento vem de um jogo de poder que envolve dinâmicas sociais e interesses políticos e econômicos.

Esse sofrimento social resulta de uma violência cometida pela própria estrutura social, a relação desigual de poder resulta em não poder negociar os termos da própria existência.

Esse texto inicia dizendo que existem 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza. Traduzindo em outras palavras, são 13,5 milhões de pessoas com possibilidades de ação e escolhas limitadas. Alexsandra precisa diariamente escolher o que vai priorizar em seus gastos, uma decisão errada pode fazer com que falte leite e pão para seus filhos. Salão de beleza, nem pensar.

O Filósofo Johan Galtung chama isso de violência estrutural, que é uma forma particular de violência que não precisa da ação direta do sujeito para acontecer, mas que é caracterizada pela sua natureza processual e indireta.

Não foi o mero acaso que trouxe o sofrimento social para essas pessoas. Podemos mencionar algumas forças sociais “pouco conhecidas” como pobreza, racismo, diferenças de gênero, migração, heranças coloniais e exclusão social.

A ajuda de Carlinhos Maia pode ser classificada como cidadania humanitária, termo utilizado pelo antropólogo Vinh-Kim Nguyen para definir quando alguém, para obter direitos de cidadão, precisa apresentar uma patologia social, ou seja, a marginalidade, a dor, a doença, até a morte são requisitos para aí sim reivindicar direitos.

Isso quer dizer que todas essas pessoas que são acudidas pelo Carlinhos Maia, precisam passar primeiro por situações precárias para só depois ter o direito de ser ajudadas. Alexsandra estava na garupa de uma moto embaixo do sol forte do nordeste enquanto seu filho, caminhando a pé, tentava acompanhar a velocidade do veículo. Foi assim que Carlinhos Mais os avistou na estrada.

Sujeito de direito x Caridade

Alexsandra é um sujeito de direito ou um sujeito de caridade?

A partir do início do século XX, começam a surgir os direitos sociais, resultado das lutas enfrentadas pela classe trabalhadora. Esses direitos se referem ao atendimento das necessidades básicas humanas, como alimentação, habitação, assistência, saúde, educação, garantidos pelo artigo 6º da nossa Constituição Federal, ou seja, o mínimo para que Alexsandra possa exercer sua cidadania.

Nesta página da Secretaria Especial do Desenvolvimento Social, é possível ver que existem Três dimensões da cidadania, que são os direitos sociais, juntamente com os Cívis e os Políticos. Alguns exemplos da aplicação dessas dimensões, são os programas que visam geração de trabalho e renda, de alfabetização de adultos, de capacitação profissional, entre outros.

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Em um mundo ideal, não precisaríamos do Carlinhos Maia para proporcionar recursos tão básicos, porque afinal, é dever do Estado garantir que esses direitos sejam cumpridos.

Inúmeros fatores políticos econômicos fazem com que somente os direitos não sejam suficientes para atender os 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, cabendo a caridade (Carlinhos Maia) tentar dar conta de toda essa violência social.

E apesar de programas como o Bolsa Família, ajudar milhões de Brasileiros na extrema pobreza, há quem o critique dizendo que “dar não ensina a pescar”, mas como ensinar a pescar sem caniço, anzol, e sem peixe?

A Naturalização da Caridade

A falta de um discurso crítico, que fale sobre fatores sociais e direitos, faz com que as ações feitas por Carlinhos Maia naturalize a caridade.

Se torna normal um sujeito depender da sorte para poder ter uma cama decente para dormir. Se torna normal uma mulher depender de um desconhecido para conseguir uma entrevista de emprego.

São milhões de pessoas assistindo aos Stories, sem ter a chance de se questionar o que está vendo, comentando e compartilhando.

Fontes:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/06/politica/1573049315_913111.html

https://craspsicologia.files.wordpress.com/2013/03/interlecuc3a7c3b5es-entre-a-psicologia-e-a-pnas.pdf

https://journals.openedition.org/etnografica/1036

Autor

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil "Universos Diversos" sobre educação inclusiva. Há 10 anos escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

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