Política

Com Bolsonaro, Brasileiros estão em situação de Kwai

Análoga à Situação de Barril, Situação de Kawai ocorre quando muitas pessoas sem emprego e renda, se submetem a um esquema perverso de controle comportamental para ganhar de R$400,00 até R$1.000.
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Aplicativos de vídeos curtos vem aproveitando a extrema vulnerabilidade financeira dos brasileiros para lucrar com um sistema de controle comportamental baseado em recompensa financeira.

Atualmente não existe nenhuma regulamentação proibindo empresas de oferecer recompensa financeira por tempo de uso dos seus aplicativos e indicações para novos usuários. Essa estratégia, apesar de possuir uma enorme adesão e muito comum, possui igualmente, enormes efeitos negativos, principalmente quando adotadas em países como o Brasil, com elevados índices de desemprego, fome, desigualdade e vulnerabilidade social.

O Brasil está passando pela maior crise sanitária e hospitalar que já enfrentou, mas também econômica, política e moral, conforme apontado pela historiadora Lilia Schwarcz.

Informações baseadas em evidências demonstram que o governo Bolsonaro contribuiu de forma significativa para o atual quadro, agravado por 116,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar ou passando fome, 14,6 milhões de pessoas em busca de trabalho e 220 mil em situação de rua.

Somando a isto, acompanhamos desde o primeiro dia do governo o desmonte de uma série de políticas de saúde conquistadas com muito esforço pela sociedade civil, o revogamento de direitos civis e trabalhistas, o aumento da violência do próprio Estado contra a população e a constante ameaça a democracia.

A vulnerabilidade financeira é um dos aspectos que mais afetam a qualidade de vida em sociedade. Sendo assim, o desemprego, a baixa renda e a possibilidade de passar fome, levam as pessoas a aceitarem condições precárias de trabalho e serem exploradas ao máximo, com o mínimo de retorno. Sobretudo, o enfraquecimento da cidadania abre possibilidades para submissão as perversões capitalistas.

Não precisamos ir até casos extremos. O jovem que mora com a família, mas não tem perspectiva de formação, emprego, ou possibilidades financeiras, vê nos aplicativos de vídeos curtos, uma maneira de ganhar dinheiro e poder comprar algo que deseja.

Como veremos a seguir, os custos dessa maneira de gerar renda beiram o uso prejudicial de drogas e oferecem sérios riscos para a saúde mental.

Tiktok e Kwai, principais aplicativos de vídeos curtos, vem conquistando um número alucinante de novos usuários. Segundo Mariana Sensini, diretora do Kwai no Brasil, só entre maio e julho de 2020, o aplicativo ganhou 20 milhões de novos usuários no país. Já o Tiktok, seu principal concorrente, possui 7 bilhões de brasileiros em sua base de usuários.

Rindo mais que os usuários vendo vídeos engraçados, só mesmo os grandes empresários, que investem pesado e lucram com o dinheiro dos anunciantes.

Ambos aplicativos vêm adotando como estratégia de crescimento, explorar a recompensa, um dos mecanismos mais básicos do ser humano.

O exemplo prático desse mecanismo pode ser explicado no exemplo em que um usuário assiste um vídeo curto de gatinho e sente prazer nisso. Os aplicativos são construídos de forma a identificar e personalizar a experiência do usuário utilizando inteligência artificial (IA), controlando, assim, o tipo de conteúdo que aparece na tela do celular.

Todo comportamento é monitorado pela IA. Informações do tipo: se o usuário viu o video até o fim, deixou repetir, curtiu, comentou, compartilhou ou passou para outro vídeo, é registrada pela IA, que personalizada a todo instante a experiência. Isso faz com que o usuário sempre assita a vídeos de seu interesse.

Enquanto tudo isso acontece, por conta da sensação de prazer constante, o cérebro vai recebendo quantidades ininterruptas de hormônios ligados ao prazer, o que faz muitos ficarem, sem perceber, longos períodos no aplicativo. Esse processo é muito semelhante ao consumo exacerbado de pornográfica e drogas como o Ecstasy.

Outro mecanismo muito relevante ocorre quando a única ação necessária para interagir com o aplicativo é deslizar o dedo para cima, isto reforça um comportamento “passivo” permitindo que o usuário gaste o mínimo e energia e não perca a atenção.

Gamificação

Como se não fosse o bastante, toda essa estratégia, para muitos, considerada perversa, se intensificou ainda mais com a gamificação dos aplicativos. O que antes era um aplicativo de vídeos curtos, se tornou também um jogo no qual ganha quem passar mais tempo vendo vídeos e consegue chamar mais amiguinhos para fazer o mesmo.

A recompensa?

Dinheiro, de R$400 até R$1.000.

Reprodução / TikTok

O dinheiro, por ser um de meio de troca universal, reconhecido por todos, por um lado permite que as relações sociais se libertem da dependência de pessoas específicas, mas, por outro lado, torna o contato humano apenas um contato comercial.

Georg Simmel

São muitos os relatos de pessoas passando intermináveis horas nos aplicativos vendo vídeos e implorando a amigos, familiares e desconhecidos para baixar o aplicativo e, assim, poder cumprir as metas estipuladas.

Reprodução / Twitter
Reprodução / Twitter
Reprodução / Twitter

As metas incluem entrar diariamente no aplicativo, pedir para os amigos assistirem ao menos três minutos por três dias consecutivos e realizar missões, como, por exemplo, conseguir indicar no mínimo 5 amigos em 24 horas. Ainda é possível utilizar o saldo das recompensas para comprar pacote de internet e continuar executando as tarefas.

Todo mecanismo foi pensado para condicionar comportamentalmente os usuários nas tarefas, executando-as quase que automaticamente, sem o mínimo de reflexão sobre o que estão fazendo.

Jogo Patológico

Infelizmente ainda não existem estudos analisando os efeitos psicológicos e sociais da prática relacionada acima, entretanto, o artigo sobre Jogo patológico e suas consequências para a saúde pública, produzido por um grupo de pesquisadoras do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo, podem nos ajudar a ter uma ideia de como esta prática pode ser prejudicial.

Conforme apontado pelas autoras, o jogo patológico é uma das categorias de transtorno impulsivo e se caracteriza pela persistência e recorrência do comportamento de jogar.

Entre os 10 itens indicados para avaliar a presença do transtorno, com base nos relatos observados em uma rede social, é possível relacionar a experiência dos usuários dos aplicativos de vídeos curtos, com pelo menos 6 deles:

  • Preocupar-se com jogo (atingir as metas e conseguir dinheiro se torna um dos objetivos centrais do dia).
  • Ter necessidade de aumentar o tamanho das apostas para alcançar a excitação desejada (a necessidade de se esforçar até o limite para alcançar o prêmio máximo em dinheiro).
  • Esforçar-se repetidamente e sem sucesso (para muitos, as metas são inalcançáveis, o que gera muitas frustrações).
  • Contar com outros para prover dinheiro para aliviar situação financeira desesperadora por causa do jogo (são muitos os relatos de pessoas implorando ajuda em suas redes para alcançar as metas).
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Reprodução / Twitter
  • Inquietar-se ou irritar-se quando diminui ou pára de jogar; (aumento de irritabilidade).
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  • Jogar como meio de escapar de problemas ou para aliviar estado disfórico .
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As diversas vulnerabilidades sociais intensificadas pelo governo Bolsonaro criam uma realidade onde se torna normal, jovens, inclusive adultos, na expectativa de ter alguma renda, se submeterem as perversões capitalistas, comprometendo sua saúde mental e física em troca de R$400 até R$1.000,00, quantia que faz diferença na vida de muitos brasileiros.

As perversões capitalistas estão soltas por aí normalizado crueldades. É cruel a forma como ambos aplicativos condicionam os usuários, é cruel a realidade dos entregadores de delivery, dos dependentes do auxílio emergencial, dos imigrantes, dos desempregados, dos moradores das favelas, dos doentes mentais, de todos que dependem do Estado e acabam se submetendo a precariedades para viver, ou ter acesso à vida comum em sociedade.

Ademais, o plano do governo também envolve evitar que temas como este sejam discutidos e problematizados. Por meio do desfinanciamento e sucateamento de Universidades Federais, principais fomentadores de saberes críticos, se espera passar a boiada e continuar a exploração dos cidadãos, por intermédio de suas vulnerabilidades.

Estamos em situação de Kwai.

Franklin Alexandre é gestor de Marketing e graduando em Psicologia. Autor do livro paradidático "Universos Diversos em Diversos Universos", atualmente conduz uma pesquisa voltada para a área de Políticas Públicas de Saúde pela Universidade Paulista e atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas de saúde, psicologia escolar, psicanálise com crianças e educação inclusiva.

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