Psicologia

Patologização da vida: Quando ter uma Personalidade se torna Despersonalização

Como a patologização da vida vem transformando o sofrimento psíquico em uma doença mental.
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Psicólogos vêm relatando um aumento alarmante do número de pessoas se dirigindo à clínica com diagnósticos e relatos de Transtorno de Despersonalização. Inclusive fazendo o uso de medicamentos.

Segundo o médico José Gallucci Neto, despersonalização são “experiências persistentes ou recorrentes de sentir-se desligado de si próprio e de como se o indivíduo fosse um observador externo dos próprios processos mentais ou do próprio corpo (p.ex., sentir-se como em um sonho).

Apesar de parecer um termo novo, médicos e teóricos discutem e criam hipóteses sobre essa suposta patologia há mais de 100 anos.

Em geral, a despersonalização (ou desrealização) é considerada um transtorno comum, tendo uma prevalência ao longo da vida entre 26-74%. Vários estudos apontam que a idade é um fator significativo: adolescentes e adultos jovens relataram a taxa mais elevada. Segundo a professora Valéria Barbieri (FFCLRP), metade da população já experimentou pelo menos uma vez na vida os sintomas do transtorno da despersonalização. (fonte)

Em um estudo, 46% dos estudantes universitários relataram pelo menos um episódio significativo no ano anterior. Em outro estudo, 20% dos pacientes com traumatismo cranioencefálico leve experimentam despersonalização e desrealização significativas.

Vários estudos também descobriram que até 66% dos indivíduos em acidentes com risco de vida relatam despersonalização transitória, no mínimo, durante ou imediatamente após os acidentes. A despersonalização ocorre 2 a 4 vezes mais em mulheres do que em homens. (fonte)

Além da explicação que envolve um transtorno que acomete um indivíduo, esses dados também poderiam ser explicados simplesmente pelo fato de que adolescentes e adultos jovens em geral, por conta do processo de amadurecimento, podem sofrer em um grau maior por crises existenciais, dúvidas e pressões sociais, levando a sensação de desconexão.

Com relação aos estudantes universitários, há inúmeros estudos relacionando o contexto acadêmico a sofrimento psíquico. Quanto às mulheres, sabemos como o contexto social coloca pressões e papéis sobre os gêneros, muitas vezes incabíveis as suas personalidades. Não obstante, qualquer pessoa poderia relatar sintomas de despersonalização caso sofresse uma batida forte na cabeça.

Apesar de comum, como uma gama infinita de experiências humanas, desregulações físicas e orgânicas têm sido apontadas como causas para o quadro de despersonalização (fonte). Além disso, como a despersonalização geralmente está associada a casos de depressão e ansiedade, pessoas estão passando a tomar remédios para voltar à “normalidade“.

Dito isto, precisamos esclarecer algumas questões muito importantes:

Concordamos que nossos sentimentos são, de fato, reações físicas e orgânicas, mas quem está definindo o limite do “normal” e “anormal“?

Como uma série de sentimentos, experimentados por metade da população se tornou um transtorno psiquiátrico?

As pessoas diagnosticadas com despersonalização realmente precisam ser medicalizadas?

Apresentando a patologização da vida

A psiquiatria, como uma das especialidades da medicina, é basicamente responsável pelo diagnóstico e tratamento dos chamados Transtornos Mentais e de Comportamento. Como se faz isso? – Classificando.

Classificar é o comportamento de colocar as coisas em classe, algo que todos nós fazemos (aparentemente) naturalmente e, por sinal, o tempo todo. O filósofo Zygmunt Bauman afirma sobre a classificação: “Consiste em nos atos de incluir e excluir. Cada ato nomeador divide o mundo em dois: entidades que respondem ao nome e todo o resto que não. (…) tal operação de inclusão/exclusão é um ato de violência perpetrado contra o mundo e requer o suporte de uma certa dose de coerção.”

A enciclopédia chinesa intitulada ‘Empório celestial de conhecimentos benévolos” é um exemplo excelente de classificação. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em 14 categorias: (fonte)

(a) pertencentes ao Imperador
(b) embalsamados
(c) amestrados
(d) leitões
(e) sereias
(f) fabulosos
(g) cães vira-latas
(h) os que estão incluídos nesta classificação
(i) os que se agitam feito loucos
(j) inumeráveis
(k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo
(l) et cetera
(m) os que acabaram de quebrar o vaso
(n) os que de longe parecem moscas.

Apesar do aspecto cômico, essa classificação pode incluir todos os animais do planeta, na pior das hipóteses, na categoria (l).

A psiquiatria, portando a bandeira da ciência, classificou todos comportamentos humanos considerados “anormais”, e assim criou o CID – Código Internacional de Doenças. Neste livro, a despersonalização se encontra na categoria “Transtornos Dissociativos” (transtorno na psiquiatria é uma grande variedade de condições que afetam humor, raciocínio e comportamento), sob o número 300.6.

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Transtorno de Despersonalização / CID-9

A função deste livro é auxiliar o/a médica no diagnóstico, fornecendo informações sobre as características integrantes deste comportamento “anormal”. Para uma pessoa ser diagnosticada com despersonalização, precisa atender a 4 critérios diagnósticos:

a) Experiências persistentes ou recorrentes de sentir-se desligado de si próprio e de como se o indivíduo fosse um observador externo dos próprios processos mentais ou do próprio corpo (por ex., sentir-se como em um sonho).
b) Durante a experiência de despersonalização, o teste de realidade permanece intacto.
c) A despersonalização causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
d) A experiência de despersonalização não ocorre exclusivamente durante o curso de outro transtorno mental, como Esquizofrenia, Transtorno de Pânico, Transtorno de Estresse Agudo ou outro Transtorno Dissociativo, nem se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral (por ex., epilepsia do lobo temporal).

Normal x Anormal

Dito isto, e dando alguns passos para frente, podemos observar quem está por aí, classificando o normal e anormal. “Anormal” é um adjetivo latino sem substantivo, qualifica o que não tem regra ou o que contradiz a regra.

O psicólogo Lev Vygotsky explica:

“Toda nossa cultura está destinada a pessoas dotadas de certos órgãos, mãos, olhos, ouvidos e determinadas funções cerebrais. Todas as nossas ferramentas, técnicas, os signos e os símbolos estão idealizados para um tipo de ser humano normal”. (fonte)

Em outras palavras, existe um senso comum do que é um ser humano normal – aquele dentro das “regras”. São expectativas que conferem comportamentos esperados, como “ser feliz”, “trabalhar”, “empreender”, “socializar”, etc. Para entender melhor como somos controlados pelo poder existente na sociedade, ditando o normal e anormal, leia este livro.

O mundo da pessoa sã caracteriza-se pela utilidade, direção e propósito

Van den berg

Com relação às classificações psiquiátricas (CID), o Filósofo Michel Foucault lembra que a verdade é uma invenção interpretativa, cujos conceitos são datados e que dura até que uma outra verdade venha substituí-la.

Tudo isso nos diz que a despersonalização não é uma verdade absoluta. Só existe, poderíamos dizer, para quem acredita que a ciência é capaz de criar um critério a), b), c) e d) para classificar 7,594 bilhões de pessoas em apenas 1 diagnóstico, sendo que cada ser humano possui um modo de ser-no-mundo e uma personalidade totalmente exclusiva.

O psicólogo Nichan Dichtchekenian nos recorda que as ciências naturais cumprem o papel de aplacar nossa angústia de viver com o indeterminado, ao acreditar que o mundo pode ser explicado e determinado por métodos “científicos”.

Até hoje, nenhum ser humano se repetiu.


Breve análise de caso

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Shinji Ikari

Shinji Ikari é um personagem de anime japonês dos anos 90 chamado Neon Genesis Evangelion. O jovem possui um forte sofrimento emocional devido a sua percepção de ter sido abandonado na infância. Ele vive se perguntando se foi odiado ou simplesmente deixado para trás.

Se culpa por não ser bom o suficiente para que seu pai ficasse por perto. Após a morte de sua mãe, passou a viver com seu Sensei, pois seu pai não quisera tutelá-lo. Em aspectos gerais, Shinji demonstra ser introvertido e desconectado da realidade física. É muito apegado ao passado e prefere se isolar. (fonte)

O personagem relata uma sensação de desconexão com o mundo e de si mesmo. Em vários momentos, Shinji tem experiências de dissolução do seu “eu”. Muitos perguntam se seria o caso de despersonalização.

Os elementos que constroem o personagem foram retirados da própria experiência dos autores. Em entrevista, o diretor do anime relatou retratar no personagem sua falta de interesse no mundo e nas pessoas, bem como a falta de conexão com o “real”.

O contexto histórico de Shinji provavelmente seria difícil para boa parte das pessoas. Além disso, a forma como ele interpreta a realidade está diretamente ligada a maneira como se sente em relação ao mundo.

Do começo ao fim, assistimos o personagem sofrer por seus sentimentos em relação ao mundo. As poucas relações sociais, pressões e escassos apoios complicam mais ainda as coisas. Entretanto, não há diagnósticos. A cada episódio, na medida em que suas relações se transformam, o personagem vai descobrindo novas formas de viver no mundo. O grande combustível para essa mudança foi a própria angústia, responsável por levá-lo ao encontro do que lhe cabe e faz sentido.

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Famosa cena de aplausos para o Shinji, após conseguir compreender seus sentimentos

Após uma longa saga Shinji conclui:

– Eu me odeio;
– Mas talvez possa aprender a me amar;
– Talvez não tenha problema eu viver dessa forma;
– É, eu sou apenas eu;
– Eu sou eu;
-Eu quero ser eu;
– Eu quero continuar existindo nesse mundo;
– Eu mereço viver nesse lugar.

A fala de Shinji demonstra o sentido de ser ele mesmo no mundo e aceitar isso como um modo válido.

A despersonalização tende a surgir em personalidades diferenciadas, (como a do Shinji), com vida interior mais ou menos rica, personalidades tendendo à introspecção e à fuga dos problemas do meio exterior. (fonte).

Na hipótese do Shinji ser diagnosticado com despersonalização, será que tomando remédios e carregando um estigma tão forte, conseguiria ter as condições favoráveis para inaugurar possibilidades em sua vida? Importante lembrar que os remédios não curam, caso contrário, não estaríamos com 12 milhões de brasileiros “com depressão” (ou melhor dizendo, dor do espírito*).

* consciência e a personalidade.

Quando ter uma personalidade vira Despersonalização?

Existem duas lentes pelas quais podemos olhar para o Shinji. A primeira mostra um jovem tentando encontrar sentidos para sua vida. Já a segunda, um jovem doente, com Transtorno de Despersonalização.

O psicólogo Paulo Roberto Ceccarelli alerta para o problema da prescrição de medicamentos para etapas normais da vida:

“As condições próprias à natureza humana estão sendo cada vez mais medicalizadas pelos fabricantes de remédios em busca de clientes. É assim que, aos poucos, as pessoas estão sendo convencidas de que qualquer problema, qualquer contrariedade é insuportável, o que transformou o sofrimento psíquico em uma doença mental, para a qual existe um medicamento apropriado para a emoção que o sujeito não deveria sentir.” (fonte)

Entre 1987 e 1994, o DSM-IV introduziu 77 novas doenças mentais. Foi assim que a timidez passou a ser uma “fobia social”; o regurgitar normal dos bebês tornou-se o “refluxo esofágico patológico”; a senilidade (envelhecimento) uma “insuficiência da circulação cerebral”; e a expressão “traumatismo do bilhete que perde” utilizada para quem se preocupa por não ter ganhado na loteria (fonte).

Da mesma maneira, ter uma personalidade única, sensível, bem como não se reconhecer nesse mundo complexo e selvagem, se tornou “despersonalização”.

O tratamento para a série de sentimentos atribuídos de despersonalização é o mesmo utilizado para tantas outras questões existenciais da vida: a fala. Psicanálises e terapias, são algumas estratégias de sucesso confirmadas por professores, profissionais e pesquisadores.

Entretanto, “a cura pela fala’ (como diria Freud) parece um pouco mais distante para quem é diagnosticado com despersonalização. A psiquiatria sequestra as dores do espírito e entrega nas mãos de um suposto corpo biológico doente, que precisa voltar ao normal por meio de medicamentos.

Em um mundo capitalista, falar sobre seus sentimentos e entendê-los, muitas vezes significa ir contra todo um sistema de crenças de como a vida deveria ser.

A ideia em patologizar parece ter a intenção de trazer os sujeitos para uma normalidade fictícia e projetada. Não se trata de ajudar uma pessoa a lidar e entender seu próprio modo de ser-no-mundo e sim, de submeter essa pessoa a uma normalidade onde poderá produzir e fazer parte de uma engrenagem funcional, contribuindo para o capitalismo, acúmulo de riquezas tangíveis e simbólicas.

O sujeito que chega à clínica com o diagnóstico de despersonalização entende que precisa de um remédio, de uma solução para curar esses sentimentos tão desconfortáveis.

Efetivamente o diagnóstico traz conforto, pois agora a série se sentimentos inomináveis possui um nome e número de classificação. Com efeito, o remédio anestesia o corpo da ebulição do desconforto causado pela impessoalidade da vida. O resultado é um ser sem o combustível essencial para iluminar o que os discurso cotidianos obscurecem: a angústia.

A questão fundamental, conforme aponta o professor Paul Glasziou, “não é se o indivíduo recebe ou não diagnóstico e tratamento médico, psiquiátrico ou psicológico, mas, antes, se aqueles que necessitam de fato recebem diagnóstico e tratamento adequados, e aqueles que não necessitam possam ficar isentos de ações médicas com implicações inadequadas”.

Bauman lembra em seu livro “Modernidade e Ambivalência” como o indivíduo que possui características “estranhas” à sociedade, não escolhe ou tem controle sobre sua personalidade errática, neurótica e prontamente atribuída à deficiência.

Logo, há uma tentativa de apagar esses indivíduos “errantes”. Como?

– Patologizando.

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Shinji Ikari

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil sobre educação inclusiva "Universos Diversos". Escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

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