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Pandemia: Estamos percebendo a importância da mobilização social?

O mundo, mais do que nunca, ficou mais dependente da solidariedade, da empatia e do trabalho das organizações da sociedade civil.
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Vivemos em uma organização social moderna e líquida, marcada por dois símbolos criados pela mesma: o dinheiro e a metrópole.

Essa afirmação parte de Georg Simmel, um dos fundadores da sociologia, e Zygmunt Bauman, um dos mais notáveis sociólogos da atualidade.

Esses dois símbolos são, para estes pensadores, frutos de um processo histórico, juntos produzem o que há de mais representativo na sociedade: a individualidade, conjuntamente com o aumento da impessoalidade.

O dinheiro, por ser um de meio de troca universal, reconhecido por todos, por um lado, permite que as relações sociais se libertem da dependência de pessoas específicas, mas, por outro lado, torna o contato humano apenas um contato comercial.

Já a Metrópole (grandes cidades como São Paulo) é um lugar onde muitos podem viver e consequentemente ter contato com as diferenças. Porém, em meio a tantas diferenças, e na velocidade específica da cidade, a própria diferença se torna banal, se torna “lugar-comum”.

Em meio a tantos estímulos e tantas novidades a diferença se transforma em indiferença. O indivíduo da grande cidade é o indivíduo blasé, indiferente, incapaz de notar a diferença.  Habituado à impessoal desatenção civil, ele é incapaz de notar a novidade. 

Tudo te é falso e inútil II – Iberê Camargo, 1992

Nossa organização social moderna e líquida tornou tudo mais veloz. Porém, tornou também mais veloz o contato humano, tornou as relações sociais mais objetivas e impessoais, portanto, mais superficiais.

Contudo, nunca na história perdemos tantas vidas, famílias, nessa nossa metrópole chamada Brasil.

A morte, como banalidade, deixou de ocupar um lugar-comum e impessoal, para ocupar um lugar nada comum e muito menos impessoal na vida de milhares de brasileiros.

Nada melhor do que se deparar com nossa finitude para lembrarmos de olhar para trás e observar nossos passos.

A Pandemia do coronavírus por si, essa emergência pública global, escancarou e agravou uma série de problemas crônicos enfrentados por nós, brasileiros, como a fome, extrema pobreza, desigualdade econômica, trabalho precário, os diversos tipos de violência e a falta de moradias, para citar alguns deles.

Ao contrário do governo e das dinâmicas capitalistas que, como esperado, se mantiveram impessoais e individualizantes frente a tamanho sofrimento e urgência, observamos essa mesma sociedade individual e impessoal, surpreender e lutar contra o racismo, o autoritarismo, criar projetos independentes para geração de renda, distribuir cestas básicas em favelas, propor projetos de leis, ocupar as ruas para lutar por direitos e até entregar oxigênio em hospitais para salvar vidas.

Observamos um reconhecimento de que não é normal um cidadão morrer na fila de espera do hospital, não é normal perdermos vidas humanas por falta de assistência médica, por superlotação de hospitais, por demora em buscar o médico, por má gestão pública, negaciosismo, educação precária, por individualismo…

Como ficar setado esperando ajuda de um governo que recusou 11 vezes ofertas para compras de vacina?

Essa emergência pública tem nos mostrado a importância de estender, entrelaçar e organizar nossas mãos, em prol de resolver problemas públicos. Algo que na história do mundo sempre soubemos fazer, entretanto, por conta dessa acomodação moderna, fomos esquecendo e nos individualizando..

Apesar disso, não se engane, ainda há muito trabalho a ser feito, ainda falta muito para reconhecermos plenamente a importância da mobilização e organização social, somos o septuagésimo quarto país no índice que analisa a ajuda a pessoas na rua, doação em dinheiro para ONGs e trabalho voluntário para ONGs, ficamos atrás tanto de nações mais ricas, como nações mais pobres.

Introdução do episódio #1 (Organizações da Sociedade Civil ) do podcast “Pod Público“.

Franklin Alexandre é gestor de Marketing e graduando em Psicologia. Autor do livro paradidático "Universos Diversos em Diversos Universos", atualmente conduz uma pesquisa voltada para a área de Políticas Públicas de Saúde pela Universidade Paulista e atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas de saúde, psicologia escolar, psicanálise com crianças e educação inclusiva.

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