Política

O Brasil Finalmente Tem um LIMIAR do Absurdo

Como os brasileiros, gradualmente, vêm aprendendo a diferenciar um presidente ruim e corrupto de um presidente genocida e neurótico.
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No início da graduação em Psicologia, uma das matérias mais espantosas para os novatos por conta dos termos técnicos e calhamaços para leitura foi: “Processos Psicológicos Básicos”; apesar do “básico” no nome, se trata de um vasto campo de estudo envolvendo aspectos relacionados à sensação, percepção, memória, estados de consciência, motivação, emoção e pensamento. Sendo isso, o arcabouço fundamental para explicar o fato de dez crianças terem morrido vítimas de bala perdida no RJ não ser motivo de comoção nacional. Aliás, entre 2007 a 2021, 81 crianças morreram pelo mesmo motivo, no mesmo estado. 

A forma como percebemos, lembramos, agimos e nos sentimos sobre fatos como este, está diretamente relacionada ao limiar de Diferença, um dos termos técnicos dessa matéria, funcionando assim: supondo que você queira escolher as seis melhores maçãs do Hortifrúti – as maiores, mais vermelhas e mais doces. Uma maneira seria comparar sistematicamente uma maçã com outra, até que restassem apenas algumas, tão semelhantes entre si, que você não seria capaz de perceber a diferença entre elas. Depois disso, não importaria quais você escolhesse. Portanto, o Limiar de Diferença é a mínima mudança na estimulação necessária para detectar a diferença entre dois estímulos.

Fato curioso ocorreu quando este termo acabou virando piada interna entre alguns alunos (como está seu limiar hoje?) no dia em que um professor novato tentou explicá-lo, utilizando um slide parecido com este:

Reprodução / Autor

Antes o problema fosse apenas o “slide minimal”, entretanto, além de explicar o conceito de limiar de diferença, a ele também cabia a tarefa de explicar a diferença entre o Limiar Absoluto e, para completar, a Lei de Weber. 

Após uma série de exemplos fracassados, muitas risadas e uma aula remarcada, a qual um slide mais didático seria providenciado, descobrimos que de Processos Psicológicos básicos: nada o docente entendia. Pois, era, na verdade, especialista em Psicanálise (muito bom por sinal), mas estava ali por ordem superior.

Com isso, pedimos o impeachment e obtivemos sucesso. Tenho até hoje o abaixo-assinado exigindo a troca do professor, com dezenas de assinaturas, consagrando nossa classe a com fama de “problemática”.

Além disso, convém dizer que o alvo do impeachment não foi o professor, muito pelo contrário, o destinamos à coordenação da instituição, os questionando e exigindo professores capacitados para ministrar as aulas propostas. Não o culpamos e nunca saberemos onde o “calo apertou” para ele, hoje, espero que esteja ministrando suas excelentes aulas de Psicanálise.

Neste caso, fazendo uma alusão, o limiar de diferença dos estudantes, isto é, a mínima mudança na estimulação necessária para detectar a diferença entre dois estímulos, estava bem sensível e influenciou fortemente na forma como pensaram e agiram. Por conseguinte, facilmente detectamos um professor inadequado e pedimos sua substituição. Logo, se tivéssemos várias aulas com professores que de nada soubessem, talvez demoraríamos mais ou nem tomaríamos uma atitude. Porém, como anteriormente tínhamos experimentado aulas com excelentes professores, isso afinou nosso limiar de diferença, em outras palavras, “elevou o nível”.

De forma semelhante, nesse texto, questionaremos a coordenação do nosso País e a capacidade do brasileiro de agir e decidir, em conjunto, seu futuro comum.

Em suma, nosso país está passando por uma situação tão complexa, ao ponto de qualquer acadêmico dos limiares se perguntar: quando vamos atingir o limiar do absurdo? O que falta para tomarmos atitudes frente aos coordenadores irresponsáveis desse país?

Não é novidade para o leitor desse texto, que um ano após o início da Pandemia de Coronavírus no Brasil, estamos retornando aos níveis de restrições adotadas no começo de tudo. Com isso, escrevo tendo plena ideia de como serão meus próximos 15 dias: em casa.

Também não é novidade que “inexplicavelmente” Flávio Bolsonaro comprou, numa área nobre de Brasília, uma casa de quase R$ 6 milhões. Para mais, o MP do Rio encerrou o grupo que o investigou sobre os Inquéritos de corrupção, que agora irão para as mãos do GAECO, grupo encarregado do caso Marielle e Anderson.

A lista é grande, posso ainda citar a investigação por uso de informação privilegiada com ações da Petrobras, A PEC da Blindagem, e o fato de 7 das 10 cidades que mais emitiram carbono no Brasil estão na Amazônia (intuitivamente qualquer um pensaria que São Paulo seria o maior emissor).

Enquanto vou reunindo os links para as referências acima, acabo de ver a Hashtag #sosbrasil em alta no Twitter e aproveito para deixar essa tirinha que peguei por lá:

Fonte: Nando Motta

Sobretudo, como resultado de um desgoverno, estamos sofrendo amargamente as 262,9 mil vítimas (e subindo) fatais do Coronavírus.

Temos a missão humanista de encontrar os verdadeiros responsáveis e responsabilizá-los. A turma de estudantes, insatisfeita com a aula, poderia facilmente pensar que o culpado seria o professor, contudo, olhando mais de perto, puderam perceber que a responsabilidade vem de cima: dos gestores, dos conselhos e da administração.

Não podemos perder o foco, nos enganando e perdendo de vista o legítimo responsável por tudo isso, o coordenador máximo: Jair Messias Bolsonaro.

O senhor presidente, detentor do poder, inclusive simbólico, possui a responsabilidade máxima sobre essa situação. Um dever que jamais, em hipótese alguma, pode ser equiparado com o de um professor tentando dar o melhor de si, sob pressão de uma instituição.

Onde se encontra o limiar de diferença da nossa sociedade para perceber como o coordenador máximo da nação passou de todos limites da irresponsabilidade e proceder com um impeachment? 

Tendo em vista essa inércia, notamos como o limiar de diferença do brasileiro ainda está muito baixo, tão miúdo que fica difícil tentar imaginar o que ainda seria preciso acontecer para que a diferença seja realmente notada e gritarmos juntos: “basta!”.

Que diferença é essa? Com o que estamos comparando? Para entender é necessário dar alguns passos para trás.

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz em seu livro “O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX”, relata uma série de processos históricos constitutivos da nossa atual sociedade. Entre eles, a péssima gestão sanitária, levando a revolta da vacina; esquemas de corrupção e nepotismo nos museus históricos. Além do enorme e constante descaso com o meio ambiente.

No livro mais recente, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”, a historiadora ainda aponta como o mito do brasileiro cortez no conceito de Sérgio Buarque de Holanda: está mudando. “Os brasileiros mais fortemente mostram traços de intolerância, de gênero, religiosa e racial. Ao mesmo tempo, cresceu a polarização política”. Percebe? Ainda não chegamos no limiar da diferença, estamos repetindo a história tentando diferenciar as maçãs, mas todas parecem iguais.

Entretanto, mudanças estão a caminho. Muitos já estão percebendo (vide os arrependidos) como nunca tivemos na história um governo tão neurótico, porque é nítido como há no poder pessoas com graves problemas de constituição do “eu”. Estamos mais do que nunca perdendo direitos e tendo inclusive que defendê-los (defenda o SUS), vendo políticas de saúde mental sendo revogadas e sofrendo o aumento da desigualdade econômica. Enfim, vivendo um terrível pesadelo.

Tal fenômeno, Alfred Adler, nos ajuda a entender quando explica alguns mecanismos dos neuróticos. Para o psicólogo, a vaidade e ambição, expressões do ego dominador, são como pecados capitais destruidores da cultura e felicidade humana. “A ambição normal provém da força, é uma função natural do ser vivo (…) a ambição neurótica vem da fraqueza e da insegurança e encontra sua satisfação na humilhação e domínio dos outros”. Com isso, Rollo May complementa: “É preciso ter coragem para se viver saudavelmente. Quando um indivíduo se reveste de coragem, livra-se da compulsão de seu sentimento de inferioridade e, consequentemente, não necessita mais lutar contra os outros”. Logo, curiosamente, “covarde” é um dos termos mais utilizados para se referir ao presidente. (veja aqui).

Finalmente, como bem nos ensina alguns existencialistas, somos nossa história, mas nossa história não nos define. Talvez esse filme de terror macabro, de fato, se torne nosso limiar de diferença para tomar atitudes frente a absurdos. Quem sabe, no futuro, há de se esperar que todos possamos saber diferenciar um coordenador máximo ruim e corrupto de um coordenador máximo genocida e neurótico. Deste modo, tomando firmes atitudes como aquela tomada por uma turma revoltada com a coordenação da universidade.

Franklin Alexandre é gestor de Marketing e graduando em Psicologia. Autor do livro paradidático "Universos Diversos em Diversos Universos", atualmente conduz uma pesquisa voltada para a área de Políticas Públicas de Saúde pela Universidade Paulista e atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas de saúde, psicologia escolar, psicanálise com crianças e educação inclusiva.

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