Como o processo histórico de desumanização de categorias sociais legitimou o Genocídio de Paraisópolis.


Certa vez ouvi de uma Professora Negra militante com uma visão bem crítica que: não devemos chamar as Favelas de comunidades, porque os moradores não escolheram viver em “comunidade”. Eles na verdade não tem outra escolha a não ser construir amontoados de barracos precários para sobreviver à margem da sociedade.

Podemos observar na imagem abaixo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em parte da cidade de São Paulo, onde verde escuro é o melhor e vermelho escuro é o pior. Paraisópolis se encontra circulada de azul e como podemos observar, a Favela está cercada por bairros onde há excelentes IDH. É como se estivessem encurralados.

Fonte: Urbit.com.br

Nove jovens morreram após uma ação polícial que ocasionou um tumulto durante um baile funk.

Acredito que essa não seja a narrativa correta, basta ver os vídeos que circulam na internet para logo perceber que os nove jovens foram mortos por uma ação policial a qual seria totalmente diferente no bairro ao lado, Real Parque.

Nessa página é possível conhecer um pouco mais sobre a história de cada um.

Para Paulo Artur Malvasi, membro do Comitê de Educação em Direitos Humanos da UNIFAAT, as famílias pobres que vivem em favelas, herdam, geração após geração, posições subalternas no mundo do trabalho, subestimação de suas produções e formas de participação social, criminalização de sua conduta, mecanismos de punição e repressão rigorosos, o controle de circulação pelas cidades, sua representação como perigoso, ou potencialmente perigoso e, finalmente, o encarceramento da pobreza ou seu extermínio.

A fala de Paulo explica exatamente o contexto dos jovens que morreram em Paraisópolis. São jovens filhos de pais pobres, e os que já trabalham, ocupam posição subalterna. Suas possibilidades sociais são reduzidas, logo não acessam muitas vias de socialização. A própria expressão de seu ser no mundo é criminalizada porque para muitos, Funk é coisa de bandido. Potencialmente perigosos, os policiais finalmente chegam para exterminar.

O governador de São Paulo, João Dória, deixou bem claro que não há interesse em criação de políticas públicas para viabilizar lazer para esses jovens. Para o poder público, eles são um problema que deve ser exterminado.

O Processo Histórico

Enio Walcácer de Oliveira Filho, Mestre em Prestação Jurisdicional e Direitos Humano, explica que a desumanização de categorias sociais é um processo histórico, que começou no período da escravidão no Brasil. Enio ainda faz um paralelo desta e o Holocausto Nazista:

Tanto no período colonial no Brasil quanto na Alemanha Nazista, tínhamos um projeto civilizatório, utilitarista que implicava a utilização de pessoas como objetos em nome de um “projeto maior”, consubstanciado por teorias religiosas,
filosóficas, jurídicas que permitiram toda a sorte de crueldades sem considerar tais condutas como barbárie, pelo menos no período e para a população que perpetrada a dominação, sejam eles os alemães do Terceiro Reich, sejam para os “desbravadores” europeus do Brasil colônia, existiam causas legítimas e escusas “racionais” em diversos níveis para as atrocidades que foram cometidas.

Enio Walcácer de Oliveira Filho

Assim, os negros foram jogados em senzalas, galpões como bichos, desumanizados, sendo vistos socialmente pelos séculos da escravidão como animais, hostis, brutalizados e irracionais.

Usavam roupas típicas, restos, características que seguiriam por muito tempo. Estigmatizados à época, hoje ainda mantém uma linguagem própria do gueto, uma linguagem marginal, uma música, dança, ginga, crença, de modo geral ainda estigmatizado, basta ver o rap das favelas, o funk “proibido”, tal é hoje como era com a capoeira da senzala, as danças e as crenças, marginalizadas operando estigmas que se solidificaram e ainda permanecem.

Enio Walcácer de Oliveira Filho

Já desumanizados, a Lei Áurea libertou os escravos, porém eles foram jogados à própria sorte e saindo da escravidão, tiveram, para sobreviver, que ingressar em um sistema de semiescravidão trabalhando por parcos salários, morando ainda em guetos e favelas. Conforme mencionado por Paulo Artur Malvasi no início do texto, esse fenômeno se mantém até hoje.

No Brasil não existe a ocorrência de preconceito relacionado à raça ou ascendência
(preconceito de origem) e sim um chamado preconceito de marca, constituído, por
estigmas marcadores de aparência.

Relacionado: Conheça os 6 novos tipos de racismo e aprenda a identificá-los.

Relacionado: Documentário chocante compara cenas do cotidiano entre Paraisópolis e Morumbi

Nesse sentido, por todo esse contexto histórico, o preto, pobre, o morador da favela possui uma imagem social desumanizada – o que legitimou a ação dos policiais em Paraisópolis.

Seguimos apoiando a nota pública da Coalizão Negra por Direitos.

Assista ao depoimento de Fernanda Franco, irmã de Dennys Guilherme dos Santos Franco, uma das vítimas do Genocídio de Paraisópolis.

Fontes:
https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/direito/article/view/2018/8782
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6136/tde-09032012-132410/pt-br.php


Autor

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil "Universos Diversos" sobre educação inclusiva. Há 10 anos escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

Escreva um Comentário