Psicologia

O que faltou para o movimento negro entender Lilia Schwarcz

A antropóloga Brasileira Lilia Schwarcz, ao escrever um artigo de opinião a convite do jornal Folha de S.Paulo, não imaginou que colocar em pauta contrapontos sobre o novo filme musical / álbum de Beyoncé poderia causar tamanho frenesi nas redes sociais.
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De Fake News a ofensas pessoais, o que faltou para os movimentos negros no Brasil, ou pelo menos para os canceladores do Twitter, entender Lilia Schwarcz? Há o que entender? Seria possível encontrar um horizonte comum? Por que um artigo que entrega mais exaltações que críticas foi alvo de um cancelamento em massa?

Em um país onde diariamente são publicadas manchetes bizarras de bolsonaristas cumprindo a agenda do presidente e sua equipe, visualizar uma notícia de uma mulher branca criticando Beyoncé, certamente soa como mais uma notícia alucinatória entre tantas outras.

Guerra das narrativas em dois momentos

No fim de julho, a cantora americana Beyoncé lançou um filme musical / álbum visual chamado “Black Is King“, onde revisita a história do Rei Leão posicionando pessoas negras como protagonistas, sobre a África como pano de fundo.

Beyoncé utilizou o Afrofuturismo, movimento que vem ganhando força com a cultura pop, mas que é conhecido desde os anos 60, para se distanciar da paisagem da escravidão, sofrimento e miséria, e aproximar e dar destaque ao passado de reis e rainhas Africanos, envoltos em ouro e diamantes.

Entre críticas e elogios, no dia 2 de agosto, foi publicado no site do Jornal Folha de São Paulo um artigo de opinião, escrito por Lilia Schwarcz, intitulado: “Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha” (título e subtítulo escrito pela equipe editorial da Folha), onde é questionado algumas decisões de Beyoncé. Rapidamente, críticas envolvendo a antropóloga inflamaram ao ponto do artigo se tornar um dos assuntos mais comentados da rede social Twitter.

Reprodução: Tweet Archivist

Segundo dados do Tweet Archivist, houve dois momentos no cancelamento generalizado da autora / artigo: o primeiro quando influenciadores como Maíra Azevedo e a cantora Iza, sustentaram o argumento: “uma mulher branca não pode dizer a uma mulher preta como ela pode contar a história e narrar a sua ancestralidade”.

Conforme representado na imagem acima, as palavras “não”, “uma”, “brancos”, “podem”, foram utilizadas para construir frases utilizando este argumento e, aparecem destacadas.

O segundo momento surge quando Thiago Amparo, colunista da Folha, responde o artigo de Lilia Schwarcz, com uma sequência de Tweets, trazendo argumentos e referências, citando o Afrofuturismo, fábulas e regatando o termo África idílica, utilizado por Lilia, se tornando o influenciador mais citado no debate.

Reprodução: Tweet Archivist

A partir disto, o cancelamento toma um novo rumo. O ataque agora gira majoritariamente em torno do argumento de que a autora desconsiderou a proposta do Afro futurismo, o que explica o distanciamento da realidade cotidiana dos africanos.

Ocorre que, um texto com acesso somente a assinante e uma autora branca certamente agravaram a situação. O clima era de “um bolsonarista falando besteira”. A cantora Iza declarou: “se eu fosse você (valeu Deus) estaria com vergonha“, o cantor Ícaro Silva pediu: “nos deixem em paz, nenhuma obra nossa estará sequer perto de sua compreensão”, a jornalista Maíra Azevedo em sua crítica disse: “o erro é uma mulher branca acreditar que pode dizer a uma mulher preta como ela pode contar a história e narrar a sua ancestralidade.”

Obviamente se fosse o caso de uma bolsonarista branca criticando Beyoncé, apenas por ódio ou ignorância, todas essas mensagens em tons odiosos fariam um certo sentido, mas não se aplica. O artigo publicado no jornal possui argumentos relevantes, igualmente postos por autoras negras de prestígio, que foram deixados de lado durante o calor do debate público.

Seria um engano dizer que os ataques partiram do movimento negro, afinal, existem diversos movimentos negros, cada um com suas idiossincrasias de grupo. Por outro lado, os ataques ganharam ainda mais força quando denunciados por grandes influenciadores, além de contar com a ajuda dos “canceladores”.

Será o chamado “modo automático” ou ‘modus’ operandi”, responsáveis por limitar os modos de ação dos coletivos? Este é um convite para dar alguns passos para trás e entender melhor o que aconteceu.

A cultura do cancelamento e o empobrecimento do debate público na internet

A cultura do cancelamento é um movimento complexo e cheio de facetas. O fato é que as redes sociais são as grandes mães e plataforma dessa iniciativa. O Twitter, por exemplo, com o limite de 280 caracteres e seu sistema de Retweet, funciona como um excelente equipamento de cancelamento.

Geralmente, os cancelamentos ocorrem após um grande influenciador definir o alvo e em seguida seus seguidores, engajados, partem para o massacre, muitas vezes sem problematizar ou criticar o assunto. É um efeito manada.

No texto “Por que o Brasileiro tem muito WhatsApp e pouca internet“, é apontado como as operadoras de telefonia contribuem para o empobrecimento do debate público na internet, oferecendo planos que limitam o acesso a páginas de notícias, ao mesmo tempo, permitindo que o usuário navegue ilimitadamente pelas redes sociais.

No referido caso, além de todo contexto do cancelamento em massa, e restrição de conteúdo, muitos usuários não conseguiram ler o artigo por conta do paywall adotado pela Folha, o que limitou o acesso ao conteúdo somente a assinantes. Aparentemente 3 dias depois da publicação, o conteúdo foi liberado para todos.

“O cancelamento lentamente, vai enganando o debate público e deixando-o restrito a guetos”

@pedrodoria

Esses fatores contribuíram para o empobrecimento do debate a respeito do “texto problemático”. Após toda discussão, foi possível sair do lugar e evoluir no debate sobre racismo, cultura, mídia e, sobretudo, o que o texto realmente quis dizer?

Beyoncé no trailer de ‘Black Is King’ – Reprodução

O contexto da autora

Lilia Schwarcz possui uma extensa carreira no estudo da antropologia e raças no Brasil. Há 32 anos publicara o livro “As barbas do Imperador“, discorrendo sobre a biografia de d. Pedro II, contribuindo com o resgate das origens históricas dos costumes brasileiros. Há 27, o livro, derivado de sua dissertação de doutorado, chamado “O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX”, construindo um revisionismo histórico sobre a diversidade racial no Brasil e segue com as publicações: “Brasil: uma biografia“, “Nem preto nem branco, muito pelo contrário: Cor e raça na sociabilidade brasileira” e “Sobre o Autoritarismo Brasileiro.”

Além de suas contribuições acadêmicas, também desenvolve trabalhos paralelos, como curadora-adjunta de histórias do Museu de Arte Moderna de São Paulo, colunista do jornal Nexo e apresentadora do Canal Lili no Youtube, onde é possível encontrar entrevistas com Silvio de Almeida e Djamila Ribeiro, principais expoentes dos movimentos negros no Brasil.

De fato, toda sua trajetória no estudo de raças, desigualdade e autoritarismo, além do alinhamento com os pensadores negros brasileiros, a conferiu liberdade para analisar o novo filme de Beyoncé e assim o fez.

“Não sou adepta de respostas rápidas para lacrar na internet

Djamila Ribeiro

A cultura do cancelamento ignorou totalmente a série de exaltações feitas por Lilia quando diz: “o filme chegou em boa hora”, “nada na obra de Beyoncé cabe apenas numa caixinha”, “Não há como negar as qualidades de Black Is King”, “Africa essencial e idílica por certo combina com o ritmo e a genialidade dessa estrela do pop”, e se apegou ao título do texto, claramente desconexo com o conteúdo, despejando críticas sem procurar entender o argumento central.

Decerto, não poderíamos esperar outro ponto de vista partindo de uma historiadora e antropóloga, comprometida em estudar a gênese das histórias e problematizar as narrativas.

O artigo traz um contraponto inclusive feito por outros autores (negros), envolvendo a problemática de romantizar a África.

Jade Bentil, historiadora, feminista negra e pesquisadora da Universidade de Oxford, afirmou em junho deste ano, em sua conta do Twitter, que ocorre uma Wakandificação do continente e as identidades diaspóricas negras, fazendo uma alusão a Wakanda, um país fictício localizado na África subsariana retratado recentemente no filme Pantera Negra. Bentil explica com isso, que os repetidos tropos / gestos simbólicos homogenizam e essencializam milhares de culturas africanas com o objetivo de gerar lucro.

Judicaelle Irakoze, feminista negra, decolonial e política do Burundi, um País na África Oriental, afirmou: “O filme era rico, bonito e entretido, mas eu esperava mais. Eu esperava que você tivesse mostrado a África e a negritude não enraizada em uma posição capitalista. Eu esperava que você deixasse o mundo entender a realidade cotidiana dos africanos.”

Neste artigo (em inglês), o jornal The Washington Post reúne uma série de relatos apontando a necessidade de produções que contribuam para um retrato da África atual. “As pessoas ficam muito surpresas ao saber que vamos ao Spa.” – Bassey – moradora de Ekiti, um estado do sudoeste da Nigéria.

Se para Lilia faltou entender que, dessa vez, Beyoncé preferiu uma abordagem Afrofuturista – e tudo bem, ótimo, para todos aqueles que a atacaram, hostilizaram e produziram Fake News, dizendo que ela era contra as cotas raciais, faltou absolutamente tudo que envolve um debate saudável e democrático nas redes sociais.

“Ela é Branca”

O post feito por Alexandre, ligado aos sites Lista Preta, Mundo Negro e ao projeto Pretitudes, recebeu até o momento 567 Retweets comentários, 4,6 mil Curtidas e pode ser utilizado como um protótipo de como uma pessoa engajada com os movimentos negros se comportou frente ao texto da Lilia Schwarcz.

As respostas ao seu post possuem um tom de ódio e nenhuma acompanha o link do artigo. É possível encontrar mensagens citando Fake News:

Até que ponto essa maneira de lidar com uma problematização contribui para o fortalecimento dos movimentos negro no Brasil?

No livro “Lugar de Fala“, Djamila Ribeiro aponta para uma questão bastante comum quando o termo “lugar de fala” é acionado nas discussões atuais, principalmente nas redes sociais digitais, nas quais igualam lugar de falar a representatividade. Partindo dessa relação, o lugar de fala torna-se um botão que ativa ou não o direito de falar sobre algo, ou seja, negros só falam sobre negros, mulheres sobre mulheres, homossexuais sobre homossexuais e daí por diante.

É compreensível a afirmação: só compreende o que é racismo quem sofre com ele. Porém, quando se limita o debate a partir desse lugar que o outro não vivencia, a questão fica isolada ao entendimento de suas vítimas e não alcança as estruturas de poder.

“Ampliar a discussão não significa abandonar esse lugar de fala, isso é impossível, pois todos nós partimos de um. É fundamental que a problematização vá além de quem é atingido por ela.”

Beyoncé no trailer de ‘Black Is King’ – Reprodução

Em uma abordagem fenomenológica, o título do artigo e a ironia, ao sugerir que Beyoncé saísse de sua sala de jantar, atingiu os movimentos e principalmente os fãs da cantora como uma bomba, a poeira bloqueou a visão, impedindo de reconhecer os argumentos expostos.

Considerar problemáticas na obra de Beyoncé, leva a uma quebra da repetição, no sentido puro da palavra, aqueles que amam a Beyoncé, querem que a exaltação e perfeição se repita eternamente. Essa quebra causada pelo texto só leva para dois caminhos-interligados: a angústia e o medo.

Qualquer um que sente medo, revela algo do interior do mundo como temível. “Por exemplo, numa situação de medo diante de uma barata, esse inseto aparece como algo temível, ameaçador. Não está em questão se o medo é “real”ou “patológico”; o que interessa é a experiência do “sentir” medo.

A experiência de ler críticas, neste contexto, soaram de imediato como algo terrível e ameaçador. O meio hábil se deu na fuga, cancelando a autora e ignorando o fenômeno em si.

Os movimentos negro (ou os canceladores da internet) quando colocam a autora no bloco da branca que não entende nada sobre a luta anti racista, fecham as portas para um debate saudável e democrático sobre diversos pontos envolvendo o filme de Beyoncé. Não houve espaço e diálogo para discutir os argumentos, também colocados por Jade Bentil e Judicaelle Irakoze.

Este texto não tem o objetivo encerrar o assunto, muito pelo contrário, a intenção é abrir o espaço para um diálogo democrático, onde todos possam contribuir. Como todo cancelamento no Twitter tem um pico e uma queda, este atualmente se encontra no patamar mais baixo. Se espera que no próximo, seja possível ir muito além do argumento do “lugar de fala”.

Reprodução: Tweet Archivist

Franklin Alexandre é gestor de Marketing e graduando em Psicologia. Autor do livro paradidático "Universos Diversos em Diversos Universos", atualmente conduz uma pesquisa voltada para a área de Políticas Públicas de Saúde pela Universidade Paulista e atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas de saúde, psicologia escolar, psicanálise com crianças e educação inclusiva.

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