Muitos adultos gostam de perguntar para as crianças o que elas gostariam de ser quando crescer, mas raramente pensam em perguntar quem são elas. Com certeza surgiriam respostas maravilhosas e criativas.

A pergunta clássica “o que você vai ser quando crescer” deixa evidente o senso comum de que uma pessoa só se torna de fato um sujeito com identidade quando cresce e adquire um diploma, conferindo um papel no mundo.

O publicitário Celso Loducca, em seu podcast semanal, Quem Somos Nós, sempre inicia a conversa perguntando ao participante: “quem é você?”, e como esperado, após receber sempre a mesma resposta envolvendo algo sobre diploma e trabalho, insiste: “isso é o que você faz, quem você é?”

Desconcertados, os participantes se esforçam para encontrar em seu vocabulário palavras para explicar o seu ser, tornando um início de papo bem engraçado e divertido.

Em uma realidade ideal, onde os adultos gostam de perguntar para as crianças: “quem você é?”, talvez, com o tempo, a tarefa de definir a si mesmo se tornasse mais fácil.

Mas nossa realidade movida pelo capitalismo, não se importa com o que a criança acha que é. O que importa é o que ela vai se tornar, para produzir.

É nessa lógica que surge a orientação vocacional

Vocação, por definição, é “a tendência ou inclinação natural que direciona alguém para uma profissão específica”. O problema disto, é que ninguém nasce com uma inclinação natural para exercer uma profissão.

Ninguém nasceu para ser escritora, advogada, ou gerente contábil. Os interesses e habilidades são construídos em sociedade.

A orientação vocacional vai acabar com sua vida (título anterior desse texto) porque é um programa, teste, ou aconselhamento, que parte do pressuposto de que as pessoas nascem com aptidões, que precisam ser descobertas, desconsiderando os inúmeros os fatores sociais que constroem o interesse por uma profissão.

Assim, você nunca vai ter contato com seus reais interesses, e, no futuro, descobrir que a profissão que você escolheu não tem nada haver com o seu verdadeiro “eu” e sim, com uma série de idealizações construídas ao longo da infância e adolescência.

A orientação profissional

A orientação profissional é uma perspectiva crítica, que podemos defini-la como um conjunto de intervenções que visam à apropriação dos chamados determinantes da escolha. Estes determinantes é que levam à compreensão das decisões a serem tomadas e possibilitam a elaboração de projetos.

Ao longo da infância, sofremos influência social e da família na escolha profissional. Profissões relacionadas a medicina, jornalismo, publicidade são fortemente valorizadas socialmente, visando interesses identitários ou econômicos.

Não se trata de uma terapia, mas funciona de forma parecida, no sentido de que ajuda o jovem a entender porque ele está escolhendo certa profissão.

Ou seja, o profissional deve possibilitar ao orientando a ampliar a consciência que possui sobre a realidade que o cerca e instrumentalizá-lo para uma atuação transformadora diante da realidade social.

Um exemplo prático da orientação profissional, é explicar e mostrar várias atribuições que envolvem a área de atuação.

A jovem pode querer atuar com Psicologia porque viu na televisão, se inspirou e idealizou, mas a informação que não chega é que Psicólogos tem que fazer inúmeros e extensos relatórios, e, se escrever não é seu forte, de fato, seria uma profissão bem problemática.

O objetivo principal da orientação profissional é ajudar o jovem a elaborar seu plano de habilidades e aptidões, preparando-o para as constantes mudanças sociais, garantindo assim decisões mais seguras e elaboradas.

Mesmo diante tantas limitações sociais, muitas vezes determinantes, o profissional que faz a OP, deve acreditar que o ser humano mostra-se sujeito da própria vida e capaz de escolher meio a tantos fatores que influenciam esse processo.

É importante ressaltar o processo de OP facilita a conscientização sobre valores, estereótipos, cultura, crenças e sobre como a importância dada às diferentes profissões influencia o desenvolvimento de uma futura identidade profissional.

Sobretudo, existe uma diferença muito grande entre orientação profissional e orientação vocacional. É importante ficar atento ao processo que você está procurando, vai participar, ou participou; Se provocou reflexões a respeito de como você construiu suas escolhas e procurou desmistificar a visão que a sociedade ainda
possui a respeito da área de atuação, são pontos positivos.

Então, procure por orientação profissional e pergunte à instituição ou pessoa que está oferecendo o serviço se trabalha com essa visão crítica.

Referência: ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL COM ADOLESCENTES – Brena Maués da Silva e Ana Lúcia Finocchio.

Autor

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil "Universos Diversos" sobre educação inclusiva. Há 10 anos escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

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