Como o mito da Meritocracia nos faz sentir culpados por nossos fracassos.


Basta digitar a frase “seu futuro só depende de você” nas redes sociais, que surgem diversos memes, nossas piadas do dia a dia, com fotos de gatinhos tristes, pessoas chorando, reflexivas, acompanhadas de diversas mensagens relatando muita preocupação, tristeza e desconforto. Veja algumas:

Uma piada se torna engraçada quando esperamos por algo, e, de repente, acontece outra coisa. Os especialistas em piadas, chamam isso de quebra de expectativa. Os memes acima são engraçados para algumas (muitas) pessoas porque acontece exatamente isso. Talvez, ao ouvir que nosso futuro só depende de nós mesmos, se “esperaria” uma reação como “ok, tudo bem”, mas, o que vem, são pessoas chorando e desesperadas. Um sintoma nítido de que algo está errado.

A frase “seu futuro só depende de você“, de fato, só faz sentido para as pessoas que acreditam na meritocracia como um valor universal, que é a ideia de que as conquistas de uma pessoa são proporcionais ao esforço que ela fez para consegui-las. É o que explica o historiador Sidney Chalhoub, da Universidade de Campinas (Unicamp):

A meritocracia como valor universal, fora das condições sociais e históricas que marcam a sociedade brasileira, é um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais que caracterizam a nossa sociedade. Portanto, a meritocracia é um mito que precisa ser combatido tanto na teoria quanto na prática. Não existe nada que justifique essa meritocracia darwinista, que é a lei da sobrevivência do mais forte e que promove constantemente a exclusão de setores da sociedade brasileira. Isso não pode continuar

Sidney Chalhoub

Em outras palavras, Sidney está dizendo que as condições sociais e históricas de um indivíduo, são fundamentais para definir as possibilidades de movimentação em sociedade.

É curioso que a origem do termo “meritocracia” surgiu em um livro chamado “The rise of the meritocracy” (“A ascensão da meritocracia”, em tradução livre), publicado em 1958 pelo sociólogo e político britânico Michael Young.

O livro, que era uma sátira, descrevia uma sociedade distópica do futuro em que se consolida uma elite baseada em resultados de testes de QI padronizados. Como apenas aqueles com acesso a boas escolas conseguem ir bem nos testes, a “meritocracia” da história apenas perpetua o desequilíbrio social.

No entanto, por uma série de motivos históricos, o termo é utilizado até hoje, não como uma sátira, mas sim, para legitimar a desigualdade.

Ou seja, os jovens mortos no genocídio de Paraisópolis, jamais teriam as mesmas condições favoráveis de construir o futuro que desejam, em comparação com os jovens que moram no bairro vizinho, Morumbi.

Continuando na mesma linha de exemplo, o jovem privilegiado, digo, branco, rico, que sabe falar inglês (que, aliás, já viajou para o exterior diversas vezes), estudou na melhor escola, possui uma rede de amigos, igualmente privilegiados, provavelmente vai crescer, e naturalmente se tornar um dos Faria Limers (jovens privilegiados que trabalham na região da Av. Faria Lima, em São Paulo).

Para qualquer jovem morador de Paraisópolis, se tornar um Faria Limer, significa se esforçar 100x mais, e ainda assim, depender da sorte de encontrar um branco privilegiado para lhe oferecer uma oportunidade de ascensão, que, não surpreendentemente, faria isso para benefício próprio.

É impossível falar sobre meritocracia, sem citar os negros, pobres, trans, deficientes, os grupos mais vulneráveis. E mesmo que você não faça parte de nenhum desses grupos, pode ser uma vítima do mito da meritocracia.

Nesse sentido, a partir do momento em que você vive em uma sociedade desigual, seu futuro nunca vai depender só de você. É preciso ter consciência disso para poder lutar por seus direitos de ter condições justas e iguais.

A cantora e compositora Bia Ferreira, em sua música “Cota não é Esmola”, narra uma história muito emocionante, de uma mulher pobre e preta, tentando ascender socialmente, que se encaixa muito nesse assunto que estamos abordando:

Confira um trecho da letra da música:

“Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola
Experimenta nascer preto na favela, pra você ver
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa a casa, outras coisas mais
Deu meio-dia, toma banho, vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra correr comprar o pão
E já que ela ta cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: Não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já da uma hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não se atrasa de novo, a diretora fala
Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo que
Se a passagem é três e oitenta, e você tem três na mão
Ela interrompe a professora e diz: Então não vai ter pão
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora lá na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita
Agora ela cresceu, quer muito estudar
Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular
E a boca seca, seca, nem um cuspe
Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não vai pra USP
Foi o que disse a professora que ensinava lá na escola
Que todos são iguais e que cota é esmola

Os memes podem ser engraçados, mas talvez seja hora de problematizarmos essa questão, para que da próxima vez, quando sentirmos dificuldade em conquistar algo, pensar sobre a parcela de culpa, que não é nossa.

Para finalizar, vale a pena conferir esse vídeo, da UNIVESP, que explica o mito da meritocracia em 4 minutinhos.

Autor

Formado em Marketing, estudante de Psicologia, autor do livro infantil "Universos Diversos" sobre educação inclusiva. Há 10 anos escreve sobre desenvolvimento pessoal, coletivo, social, humanitário e universal no site "MundoInterpessoal.com".

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